Ardanuci — o guardião de pedra de Klarjeti sobre o rio Ardanuç
Artanuji (em turco Ardanuç Kalesi, em georgiano: არტანუჯის ციხე) — uma das fortalezas medievais mais impressionantes do nordeste da Turquia, erguida sobre uma rocha íngreme acima do rio com o mesmo nome, na província de Artvin. Outrora, não era apenas um posto avançado, mas uma cidade-fortaleza, capital do principado georgiano de Tao-Klarjeti e cruzamento de rotas de caravanas entre o Mar Negro e a Pérsia. Hoje, desse esplendor restam muralhas em ruínas com 220 metros de comprimento, os escombros de uma igreja de nave única e o silêncio de pedra sobre o vale. Mas é precisamente este silêncio que torna Artanuji tão impressionante: sobe-se pela trilha até ao topo plano da rocha e dá-se por si numa reserva arqueológica de primeira categoria, onde o vento agita a relva entre as lajes, e lá em baixo estende-se a aldeia de Adakale — descendente direta da cidade medieval.
História e origem de Artanuji
De acordo com a crónica georgiana «Kartlis Tskhovreba», a fortaleza foi erguida no século V por ordem do rei Vakhtang Gorgasali. Ele encarregou o filho da sua irmã — Artavan — das obras, cujo nome, segundo uma das versões, deu origem ao nome do local. Este era um dos pontos de apoio da Clarjeti georgiana — região histórica que, na época, se estendia até às cabeceiras do Chorokh e controlava as passagens montanhosas.
No século VIII, a fortaleza foi destruída durante as campanhas árabes sob o califa omíada Marwan II, apelidado nas fontes georgianas de «O Surdo». Por volta de 820, o governante georgiano Ashot I Kuropalat encontrou a fortificação abandonada e encarregou-se da sua restauração. O cronista escreveu que Ashot «descobriu em Klarjeti, na floresta, uma rocha onde, pela primeira vez, Vakhtang Gorgasal ergueu uma fortaleza chamada Artanuji», restaurou-a e construiu uma nova cidade no seu sopé. Assim, a fortaleza renascida tornou-se o coração do principado de Tao-Klarjeti.
Os séculos IX–X — o período áureo da cidade. Situada na rota comercial entre o Mar Negro e a Pérsia, Artanuji enriqueceu com seda, prata, especiarias e artesanato. No século X, o imperador bizantino Constantino VII Porfíro deixou uma descrição detalhada da cidade no tratado «Sobre a Administração do Império» — uma honra rara para um centro provincial. Após a unificação da Geórgia no século XI, a capital mudou-se primeiro para Kutaisi, depois para Tbilisi, e a outrora brilhante cidade mercantil transformou-se gradualmente num centro provincial, governado por um eristava.
Em 1551, Ardanuch foi sitiada e tomada pelas tropas do sultão Solimão, o Magnífico, aos atabegues de Jakeli. A partir desse momento, a fortaleza passou a fazer parte do Império Otomano e foi utilizada como centro administrativo do sanjaco. Algures no território da cidade, conservou-se um mausoléu com uma cúpula de pedra tosca — local de sepultamento de Sefer e Yusuf-paşa, bem como de Ali-paşa, o mutassarif otomano do sanjaco de Ardanuch. Em setembro de 2021, tiveram início aqui escavações arqueológicas sob a direção de Osman Aitekin; os trabalhos centram-se nos períodos otomano e russo da história do monumento.
Arquitetura e o que ver
A fortaleza-cidade de Ardanuç tem uma estrutura simples e, ao mesmo tempo, imponente: a fortificação principal ergue-se no topo plano de uma rocha maciça, e a noroeste dela situa-se o povoado de Adakale — um antigo bairro urbano que existia sob a proteção das muralhas. Hoje, o território da fortaleza e de Adakale tem o estatuto de monumento arqueológico de primeira categoria.
Fortaleza exterior e interior
Artanuji é composta por duas partes — a fortaleza exterior e a cidadela interior. O comprimento total das fortificações no topo da rocha chega aos 220 metros, e a largura no ponto mais largo é de cerca de 55 metros. A maior parte das construções está fortemente destruída: até aos nossos dias, apenas chegaram até nós secções isoladas das muralhas, fragmentos da cerca e ruínas de edifícios no interior. Mas mesmo a partir destes vestígios é possível ver como os arquitetos utilizaram o relevo: as muralhas prolongam literalmente a rocha, transformando o afloramento natural num único objeto defensivo.
Igreja de São Pedro e São Paulo no interior da fortaleza
O principal edifício preservado no interior das muralhas é uma igreja de nave única, conhecida como Petropavlovska (Petre-Pavle Kilisesi). Foi construída com pedra branca não trabalhada, extraída diretamente da rocha sob a fortaleza; na alvenaria encontram-se blocos com dimensões de um por dois metros. A abside oriental sobreviveu até uma altura de 2–3 metros. O telhado não se conservou, mas nas paredes internas são visíveis vestígios de reboco e tinta azul — prova de que a igreja estava decorada com afrescos. Ao lado norte do templo encontra-se um pequeno anexo. Perto dali, outrora, erguia-se o palácio do príncipe, do qual restam apenas as fundações.
Igreja de Artanuci em Adakale
O segundo templo de importância não se encontra dentro das muralhas, mas no antigo bairro de Adakale, no sopé da rocha. É conhecido como Igreja de Artanuci (Artanuci Kilisesi) e pertence à mesma camada medieval georgiana que a fortaleza. Para os amantes da arquitetura paleocristã, visitar Adakale é tão importante quanto subir até ao topo: foi precisamente aqui que a maior parte dos habitantes da cidade viveu, fez comércio e rezou, enquanto se desenrolavam os acontecimentos políticos dentro das muralhas.
Vista do penhasco
A própria subida até à fortaleza é uma parte à parte da experiência. O trilho segue por uma encosta rochosa, revelando, à medida que se sobe, vistas sobre o vale estreito do rio Artanuci, os terraços verdes e os telhados da aldeia moderna. No topo, numa área plana sobre o precipício, torna-se claro por que razão Vakhtang Gorgasali escolheu precisamente esta rocha: de três lados — paredes íngremes; do quarto — uma passagem estreita, fácil de bloquear. À vista, um cenário típico do nordeste da Anatólia: um vale fluvial sinuoso, as encostas arborizadas das montanhas do Ponto e vestígios de antigos campos em socalcos. Num dia claro, este espetáculo é facilmente comparável às vistas sobre a cordilheira do Cáucaso a partir das fortalezas russas nos sopés das montanhas — a mesma geometria de desfiladeiros e rochas, mas com a caligrafia georgiana.
Factos interessantes e lendas
- Nas fontes turcas, a fortaleza é conhecida por um segundo nome — Gevhernik. O nome remonta ao persa «Gevher-i Nik», ou seja, «pérola maravilhosa»: «gevher» significa pedra preciosa ou pérola, e «nik» — «bom, agradável». Um apelido eloquente para uma cidade que enriqueceu com o comércio.
- O imperador bizantino Constantino VII Porfíro dedicou a Artanuji um fragmento específico do tratado «Sobre a Administração do Império» — um caso raro em que uma fortaleza provincial mereceu atenção ao nível da corte de Constantinopla.
- Segundo a tradição georgiana, Ashot I Kuropalat encontrou uma rocha numa floresta remota e reconheceu nela a fortaleza devastada de Vakhtang Gorgasali: assim, no século IX, o monumento ganhou uma segunda vida e tornou-se a capital do principado de Tao-Klarjeti.
- No interior da Igreja de São Pedro e São Paulo, ainda hoje se podem ver vestígios de tinta azul no reboco — prova de que as paredes foram decoradas com afrescos; sem restauração, esta camada frágil está a desaparecer gradualmente.
- As escavações arqueológicas, iniciadas em 2021, centram-se oficialmente nos períodos otomano e russo: isto demonstra o quão complexa é a memória histórica de Klarjeti, onde as camadas georgiana, bizantina, otomana e russa se entrelaçam numa única rocha.
Como chegar
A fortaleza fica a cerca de 1 km da aldeia de Ardanuç, centro administrativo do distrito homónimo da província de Artvin. A própria Ardanuç está localizada a 35 km a sudeste da cidade de Artvin, no vale do rio Ardanuç — um afluente do Chorokh. A forma mais conveniente de chegar a Artvin é voar através do aeroporto de Kars (KYS) ou de Erzurum (ERZ) — ambos servem voos domésticos a partir de Istambul e Ancara. De Kars a Artvin são cerca de 240 km, de Erzurum — cerca de 220 km; a estrada percorre sinuosas e pitorescas estradas de montanha.
De Artvin para Ardanuç partem dolmuşes (autocarros) de uma pequena estação rodoviária no centro; a viagem demora cerca de 45–60 minutos. Para quem viaja de carro, é mais conveniente alugar um veículo em Erzurum ou Kars e incluir no itinerário vários locais de Tao-Klarjeti: Artanuç, Ishani, Doliskhana e Tbeti. Da aldeia até à entrada do trilho para a fortaleza é uma curta caminhada, sendo os últimos 15 a 20 minutos de subida por um trilho pedregoso. Não há bilheteira específica, a entrada é gratuita, mas a zona é considerada um monumento arqueológico e não é recomendável sair dos trilhos.
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é a primavera (maio–junho) e o início do outono (setembro–outubro). No verão, o calor é intenso no vale de Ardanuch, a rocha fica escaldante e quase não há sombra na trilha. No inverno, as estradas nas zonas montanhosas de Artvin ficam fechadas devido à neve e às enxurradas, pelo que as visitas ocorrem principalmente de maio a outubro. A melhor iluminação para fotografar é ao início da manhã e ao fim da tarde: é precisamente nessa altura que se consegue ver a textura da pedra branca e o relevo da rocha.
Calçado — apenas fechado, com sola antiderrapante: as lajes de mármore e calcário na trilha ficam escorregadias após a chuva. Leve água, chapéu, protetor solar e um casaco leve — no topo, costuma soprar vento forte, mesmo em dias quentes. Reserve 1,5 a 2 horas para visitar a fortaleza e descer até Adakale; se pretender visitar também a Igreja de São Pedro e São Paulo e a Igreja de Artanuch, no sopé da colina, é melhor contar com 2,5 horas. Na aldeia de Ardanuch há vários cafés simples com cozinha regional: não deixe de provar o queijo local, o pão de milho e o mukhlam — uma sopa de milho e queijo típica do Mar Negro.
A região de Artvin combina na perfeição com o percurso pelas igrejas georgianas de Tao-Klarjeti: Ishkhani, Dolishana, Parkhali e Oshki. Todos estes locais situam-se num raio de 60 a 100 km de Artanuji e, em conjunto, formam um percurso lógico de três a quatro dias pela Geórgia medieval, no território da atual Turquia. Tenha em conta que esta é uma zona fronteiriça e, para viagens a vales remotos, vale a pena verificar com a polícia local se existem restrições temporárias. Não se esqueça de levar um mapa em papel ou um sistema de navegação offline: a rede móvel nas gargantas de Artvina tem um sinal instável. Artanuji não é o tipo de atração turística onde se anda com um audioguia nos auscultadores; vem-se aqui pela sensação da rocha deserta, do vento sobre o vale e da presença de todas aquelas épocas que aqui deixaram as suas pedras.