Mily — o ponto zero do Império Bizantino, no coração de Istambul
Imagine: está junto a uma movimentada linha de elétrico no bairro de Sultanahmet, a poucos passos da Hagia Sofia e da Cisterna da Basílica, e diante de si — um pedaço de pedra branca sem graça, a sobressair do nível do passeio. Os turistas passam a correr, sem perceber que foi precisamente a partir daqui que, há mil e quinhentos anos, se contavam todas as estradas do Império Romano Oriental. Trata-se do Milion (grego: Μίλιον, turco: Milyon taşı) — a «mãe de todas as pedras milionárias», construída por Septímio Severo no século III e transformada por Constantino, o Grande, no meridiano zero da civilização bizantina. Outrora, Milion era um majestoso tetrapilão com cúpula, estátuas de imperadores e relógio de sol; hoje, resta apenas um único fragmento de mármore, erguido num pedestal em 1968 — e essa modéstia apenas reforça o seu peso arqueológico.
História e origem de Milion
O monumento original foi erigido pelo imperador Septímio Severo no início do século III d.C., ainda na época em que a cidade se chamava Bizâncio. Era uma estela de marcação relativamente modesta, que indicava o ponto de partida para a medição de distâncias na parte oriental do império. No entanto, o verdadeiro destino de Milion começou em 330, quando Constantino I, o Grande, transferiu para cá a capital e proclamou a «Nova Roma».
Ao reconstruir Bizâncio seguindo o modelo da Antiga Roma, Constantino copiou conscientemente a sua simbologia. Assim, o Milionário assumiu um papel semelhante ao do Milliarium Aureum («Pedra Milionária Dourada») romano no fórum principal: a partir dele partiam as estradas para todas as cidades europeias do Império Bizantino, e na sua base estavam gravadas as distâncias exatas até Antioquia, Salónica e Adrianópolis. O monumento erguia-se na primeira região da cidade, junto à fronteira ocidental das antigas muralhas de Bizâncio, precisamente no local onde a rua principal, a Mesa (Μέση Οδός), fazia uma curva característica do nordeste para oeste.
O bizantino John Norwich descreveu a aparência original da seguinte forma: «O ponto central da nova cidade de Constantino tornou-se o Milion, ou Primeira Pedra Milenária. Era composto por quatro arcos triunfais, formando uma praça coroada por uma cúpula; nela estava instalada a relíquia cristã mais venerada — a Santa Cruz do Senhor, trazida pela imperatriz Helena de Jerusalém um ou dois anos antes». Sob a cúpula, erguiam-se, voltadas para o leste, as estátuas de Constantino e da sua mãe Helena, segurando a cruz, e atrás delas — a escultura da deusa da cidade, Tyche.
No século VI, o imperador Justiniano I acrescentou ao edifício um relógio de sol — um gnômon na forma de um anjo dourado a tocar uma trombeta. O seu sucessor, Justino II, decorou o piso inferior com estátuas da sua esposa Sofia, da filha Arábia e da sobrinha Helena. Gradualmente, o monumento foi adornado com esculturas equestres de Trajano, Adriano, Teodósio II e a quadriga de bronze de Helios — cada geração acrescentava o seu toque, transformando o utilitário «quilómetro zero» numa vitrine ideológica da dinastia.
Arquitetura e o que ver
Para avaliar o que era Milio na época do seu apogeu, é preciso transformar mentalmente o atual fragmento sem cor num conjunto completo de dois níveis. O fragmento contemporâneo é apenas um dos quatro pilares de suporte, retirado do solo durante as escavações de 1967–1968 e reinstalado num pequeno pedestal no canto norte da Praça de Santa Sofia.
Tetrapilão com cúpula
Arquitetonicamente, o Milion representava um tetrapilão — um arco triunfal duplo, aberto para os quatro pontos cardeais. A cúpula assentava em quatro arcos maciços, e por baixo dela passava a própria rua Mesa: o viajante entrava literalmente no império através de portões nos quais estavam esculpidas as distâncias até às suas principais cidades. Em comparação com a relativamente simples «Pedra Dourada» romana, o Milion de Constantinopla era muito mais complexo — era um pavilhão independente com espaço interior, decoração escultórica e pinturas nas abóbadas.
Programa escultórico
No topo da cúpula encontravam-se as relíquias e estátuas mais veneradas. Além de Constantino com Helena e da Santa Cruz, ali estavam o anjo dourado de Justiniano, representações equestres de imperadores romanos e bizantinos e a quadriga de Helios, uma clara referência à simbologia solar da Antiguidade. Na primeira metade do século VIII, os imperadores Filípico e Anastácio II decoraram as abóbadas com pinturas representando cenas dos Concílios Ecumênicos — o que constituía uma declaração teológica inequívoca.
Revisão iconoclasta
Durante o período da iconoclastia (meados do século VIII), o imperador Constantino V ordenou que as cenas eclesiásticas fossem destruídas ou pintadas por cima, substituindo-as por imagens de corridas de cavalos no hipódromo e de bigas. Este gesto ilustra perfeitamente o que o Milionário representava para os cidadãos: não apenas um marco de milha, mas um ecrã ideológico que cada governante tentava reescrever de acordo com a sua agenda. Hoje, neste único marco sobrevivente, nada disso é visível — mas é precisamente o conhecimento do contexto que transforma um fragmento silencioso num texto eloquente.
Lugar no conjunto urbano
O Milion estava situado a oeste da Praça de Augusto — a principal praça cerimonial de Constantinopla — e a algumas dezenas de metros da Basílica de Santa Sofia. Outrora, qualquer viagem para a província começava aqui, e era aqui também que terminavam as procissões triunfais. Na época dos Comnenos (séculos XI–XII), graças à sua vantajosa localização estratégica, Milion frequentemente tornava-se palco de combates urbanos: entre os imperadores Nicéforo III e Alexei I, entre as tropas governamentais e a imperatriz Maria de Antioquia, que controlava o Augusto a partir daqui. Após a queda do Império Latino, entre 1268 e 1271, o monumento, juntamente com a praça, foi transferido para a posse da catedral de Santa Sofia.
O que ver hoje
O visitante de hoje vê apenas um fragmento vertical de mármore branco com cerca de dois metros de altura, rodeado por uma cerca metálica baixa. Uma placa informativa em turco e inglês explica sucintamente a história. Em contrapartida, o contexto à volta é luxuoso: a Hagia Sophia a 30 metros, a entrada para a Cisterna da Basílica a 50, a Mesquita Azul a cinco minutos a pé, o Palácio de Topkapi a dez. É precisamente por isso que a maioria dos visitantes de Istambul passa pela Milionária sem sequer suspeitar que tocou no ponto de partida de todo um império.
Factos interessantes e lendas
- Em 1204, durante o saque de Constantinopla pelos cruzados, o anjo dourado de Justiniano foi arrancado do telhado e fundido para fazer moedas — um destino típico das relíquias bizantinas naquela catástrofe.
- Segundo a tradição, na cúpula de Milion era guardada a Santa Cruz, trazida pela imperatriz Helena de Jerusalém — ou seja, o monumento era simultaneamente o quilómetro zero e o mais importante santuário cristão da cidade.
- O monumento sobreviveu tanto ao pogrom latino de 1204 como ao cerco de 1453, mas desapareceu no início do século XVI, não devido à guerra, mas sim devido à «gestão municipal» pacífica: ao que tudo indica, foi desmontado durante a ampliação do aqueduto vizinho e a construção da suiteraza — a torre de água otomana.
- As escavações de 1967–1968 começaram com cálculos teóricos: os cientistas determinaram a localização provável com base em fontes antigas, conseguiram a demolição das casas que se encontravam por cima e encontraram parte da fundação e um pilar de suporte. A identificação do achado foi facilitada pela curvatura característica do sistema de esgotos bizantino, que coincidia exatamente com a curvatura descrita da rua Mesa.
- O Milionário de Constantinopla repetia a função do Milliarium Aureum romano, erigido por Augusto, mas era significativamente mais complexo em termos de arquitetura: na verdade, um edifício inteiro em vez de um simples pilar.
Como chegar
O Milionário situa-se no bairro de Fatih (historicamente — Eminönü), no bairro de Çalıköy, no canto norte da Praça de Sultanahmet, junto à saída da Cisterna da Basílica e quase em frente ao lado sul da Catedral de Santa Sofia. Coordenadas GPS: 41.008043, 28.978066.
A forma mais conveniente é apanhar o elétrico da linha T1, na paragem de Sultanahmet. Esta linha passa por Eminönü, Karaköy e Kabataş, pelo que chegará aqui a partir da maioria das zonas turísticas em 15 a 25 minutos. A partir do Aeroporto de Istambul (IST), apanhe o metro M11 até à estação Kâğıthane, depois o M7 até Mecidiyeköy e faça a transbordo para o M2 com transição para o T1; no total, cerca de 1,5 horas. A partir do aeroporto Sabiha Gökçen (SAW) — apanhe o autocarro Havabus até Taksim e, de lá, o funicular F1 até Kabataş, seguindo depois pelo elétrico T1.
A pé a partir do Grande Bazar — 12–15 minutos descendo a rua Yerebatan Caddesi. A partir do cais de Eminönü (ferries de Kadıköy e Üsküdar) — cerca de 10 minutos subindo a colina. O local fica ao ar livre, junto ao passeio, pelo que não há bilhetes nem horário de funcionamento: pode visitar-se a qualquer hora do dia.
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é de manhã cedo ou ao fim da tarde, perto do pôr-do-sol. Durante o dia, a praça de Sultanahmet fica repleta de grupos de excursão, e é fácil não reparar no minúsculo fragmento de Milion no meio da multidão. De manhã, entre as 7 :30 e as 9 :00, a zona está quase vazia, e a luz incide de forma ideal sobre o mármore branco — um momento excelente para uma fotografia tranquila e um olhar concentrado.
O local é ao ar livre e não requer bilhete, nem código de vestuário, nem tirar os sapatos — o que é uma raridade em Sultanahmet. Encaixa-se perfeitamente no itinerário de um «dia histórico»: comece pela Hagia Sofia (abre às 9h:00), desça até à Cisterna da Basílica, suba até à Milionária em literalmente cinco minutos, depois — a Mesquita Azul, a Praça do Hipódromo com o seu obelisco egípcio e a Coluna da Serpente, e por fim — o Palácio de Topkapi. Assim, percorrerá a mesma primeira região de Constantinopla, em homenagem à qual o monumento foi erigido.
Leve calçado confortável (o pavimento de pedra escorrega depois da chuva), água e uma câmara com grande angular — aqui terá de fotografar no meio de uma densa área urbana. No inverno e no outono, leve um guarda-chuva: não há abrigo perto de Milion, e a chuva transforma o mármore num espelho. Para os viajantes de língua russa, é particularmente interessante comparar a lógica do «quilómetro zero» bizantino com o marco de Moscovo na Praça Vermelha, junto ao GUM: tanto ali como aqui, a ideia é a mesma — um ponto simbólico a partir do qual o Estado mede a sua geografia.
Se tiver uma hora livre e interesse por arqueologia, depois de Milion, visite o Museu Arqueológico de Istambul no complexo de Topkapi — lá estão expostos fragmentos de inscrições bizantinas, semelhantes às que outrora cobriam a base do monumento. Assim, uma breve paragem junto a um fragmento discreto transforma-se num diálogo completo com a história milenar da cidade, e Milion deixa de ser «uma pedra por onde todos passam» e torna-se aquilo para que foi concebido: um ponto de referência.