A Ponte de Justiniano (Sakarya) — um gigante de pedra da Bizâncio no noroeste da Anatólia
A cinco quilómetros a sudoeste da agitada Adapazari, no meio da planície, ergue-se de repente a Ponte de Justiniano (Sakarya) — uma imponente estrutura de calcário com 430 metros, que atravessa o estreito ribeiro Chark-Dere, que agora corre tranquilamente onde outrora rugia o caudaloso rio Sakarya. Os contemporâneos chamavam a esta construção «as algemas do rio», e hoje os viajantes encontram aqui uma sensação rara — a sensação de estar em contacto com o génio da engenharia do Império Romano de Oriente. A Ponte de Justiniano (Sakarya), construída entre 559 e 562 durante o reinado do imperador Justiniano I, ainda se ergue sobre sete arcos imponentes, como se não tivesse havido um miléio e meio de terramotos, inundações e guerras. Esta é uma das pontes tardorromanas de maior envergadura que sobreviveram até aos nossos dias e, ao mesmo tempo, um dos monumentos mais subestimados da Turquia.
História e origem da Ponte de Justiniano (Sakarya)
O Sakarya (em fontes latinas — Sangarius, em gregas — Σαγγάριος) constituía, desde a antiguidade, um sério obstáculo no caminho de Constantinopla para as fronteiras orientais do império. Era precisamente por aqui que passava a estrada militar pela qual as legiões se dirigiam para as fronteiras da Pérsia sassânida — o principal rival de Bizâncio no século VI. Até à época de Justiniano, apenas existia uma ponte flutuante de madeira, suportada por barcos, que atravessava o rio. O historiador Procopio de Cesareia, no tratado «Sobre as Construções» (De Aedificiis), escreveu com amargura que esta ponte flutuante era regularmente arrastada pela corrente durante as cheias, e muitos viajantes morriam nas ondas.
Justiniano tomou a decisão de construir uma ponte de pedra após a sua viagem de inspeção à Trácia: já no outono de 559, os trabalhadores começaram a lançar os alicerces. O cronista Teófano, o Confessor, data o início das obras no ano 6052 «desde a criação do mundo», o que corresponde aos anos 559–560 da nossa era. A conclusão foi fixada para o ano de 562 — precisamente quando Bizâncio celebrou o tão esperado tratado de paz com os sassânidas. A data exata é confirmada por dois poemas elogiosos escritos em honra da ponte: um pertence ao poeta da corte Paulo Silentiário, o segundo — ao historiador Agátio de Mirina.
Considera-se também que a construção fazia parte de um plano muito mais ambicioso — um antigo projeto de canal que, já no século II, foi discutido por Plínio, o Jovem, então governador da Biténia, e pelo imperador Trajano. O plano consistia em ligar o lago Sapânja ao Mar de Mármora e contornar o estreito do Bósforo. O investigador contemporâneo Frank Moore considerava que foi precisamente Justino quem tencionava concretizar esta ideia, desviando parte do rio Sakarya para oeste. Michael Whitby discorda, afirmando que o leito do rio não era adequado para a navegação. A controvérsia sobre o canal ainda não está encerrada, mas foi precisamente por causa dele que a ponte atraiu a atenção dos historiadores durante muitos séculos.
Em 1899, uma linha ferroviária entre Adapazarı e a estação de Arifiye passou junto à ponte, danificando parcialmente a parte oriental da construção. Em 2018, as autoridades turcas apresentaram um pedido para a inclusão da obra na Lista do Património Mundial da UNESCO e, em 2020, a «Ponte de Justiniano (Sakarya)» recebeu o estatuto de bem na lista indicativa.
Arquitetura e o que ver
A ponte impressiona mesmo quando comparada com os viadutos rodoviários modernos. Com 429 metros de comprimento total, 9,85 metros de largura da faixa de rodagem e até 10 metros de altura, estas são dimensões típicas não de uma ponte, mas sim de uma pequena fortaleza. A construção é inteiramente composta por blocos de calcário, encaixados firmemente uns nos outros sem qualquer tipo de fixação moderna.
Sete arcos principais e a sua matemática
O corpo estrutural principal da ponte é formado por sete grandes arcos. Os cinco vãos centrais têm uma largura entre 23 e 24,5 metros, com pilares entre eles com cerca de 6 metros de espessura. Estes arcos são ladeados por dois arcos mais pequenos — com vãos de cerca de 19,5 e 20 metros. Se traduzirmos numa sequência de números, de oeste para leste, as larguras dos vãos e dos pilares ficam assim: 3 (—) 7 (9,5) 19,5 (6) 23 (6) 24,5 (6) 24,5 (6) 24 (6) 24,5 (6) 20 (9,5) 9 (—) 6 (—) 3. Em ambas as margens foram acrescentados mais cinco pequenos arcos (dois a oeste, três a leste) com larguras de 3 a 9 metros — trata-se de descargas de cheias para o caso de transbordamento.
As aberturas de drenagem, pelo contrário — um artifício bizantino
Uma característica surpreendente que distingue a ponte da maioria dos análogos romanos conhecidos: os seus pilares são arredondados do lado da corrente superior e afilados do lado da corrente inferior. Nas pontes romanas clássicas, normalmente é o contrário — uma ponta afiada encontra a corrente. O pilar mais largo, o ocidental, é totalmente cónico em ambos os lados. Foi precisamente esta inversão que levou Muru a supor que Justiniano se preparava realmente para desviar o curso do Sakarya para oeste: nesse caso, os «normais» cortadores de água seriam, na verdade, os «correto».
O arco triunfal e a abóbada misteriosa
Na entrada ocidental, outrora, erguia-se um arco triunfal — um «portal da vitória» típico da tradição romana. Em 1838, o viajante francês Léon de Laborde conseguiu esboçá-la ainda de pé: um portal de pedra com 10,37 metros de altura e 6,19 metros de largura, com colunas maciças de 4,35 metros de espessura e uma escada em espiral no interior de uma delas. No século XIX, o arco ruiu e hoje restam apenas as fundações. No lado oriental, conservou-se uma misteriosa abside com 11 metros de altura e 9 metros de largura, com uma semicúpula voltada para leste — a sua finalidade não é totalmente clara: talvez fosse uma capela ou um santuário à beira da estrada que acolhia os viajantes.
Cruzes nos pilares e epígrafe perdida
As sete colunas principais eram outrora adornadas por pequenas cruzes cristãs — símbolo da piedade imperial e, ao mesmo tempo, um sinal tácito de que a ponte se encontrava sob a proteção do céu. Hoje, apenas duas delas sobreviveram, quase imperceptíveis no calcário escurecido. Sobre tudo isto ressoava um verso da epígrafe de Agatão de Mirina, gravado na pedra: «Tu também, juntamente com a orgulhosa Hespéria e o povo dos medos e todos os rebanhos bárbaros, Sangarius, cuja corrente turbulenta é interrompida por estas arcadas, foste subjugado pela mão do soberano. Outrora intransitável para os navios, outrora indomável, jazes agora acorrentado por pedra inflexível». A inscrição em si não se preservou, mas o seu conteúdo foi transmitido nas obras do imperador Constantino VII Porfíro quatro séculos mais tarde — graças à memória literária de Bizâncio, chegou até nós a voz dos engenheiros do século VI, orgulhosos da vitória sobre o rio caprichoso.
Factos interessantes e lendas
- O nome popular turco da ponte é Beşköprü, «Ponte dos Cinco», devido ao número de grandes vãos em arco visíveis à distância. Sob este nome, a construção ainda hoje é indicada em alguns sinais de trânsito locais.
- Ainda hoje não se acalma a controvérsia académica: terá a Ponte de Justiniano feito parte de um gigantesco canal que deveria ligar o Mar Negro ao Mar de Mármora, contornando o Bósforo? A versão de Frank Moore, apoiada pelas investigações de Siegfried Frohrop, faz da ponte testemunha de um dos mais grandiosos projetos de engenharia não concretizados da Antiguidade.
- Procopio, ao descrever a ponte no livro «Sobre as Construções», trabalhava paralelamente na famosa «História Secreta», na qual não poupou Justino. Resultou numa situação rara: o mesmo autor glorificava e amaldiçoava simultaneamente o encomendante — e é precisamente graças a esta dualidade que conhecemos a data exata da construção da ponte.
- Em 1899, foi construída uma linha férrea sob um dos arcos orientais — um troço local da linha principal da Anatólia. Hoje, o comboio passa a rugir quase sob as próprias abóbadas, e a visão do fumo da locomotiva a vapor contra o pano de fundo das pedras bizantinas permaneceu por muito tempo um tema favorito dos cartões postais otomanos.
- A epígrafe de Agatho é, na verdade, um antigo ato de «domesticação» do rio: nos versos, o Sakarya é referido como subjugado por «grilhões de pedra inflexível», ao nível dos povos bárbaros vencidos. Para o leitor russo, isto faz eco à frase de Pushkin «Com rédeas de ferro, a Rússia empinou-se» — a mesma retórica de subjugação da força da natureza à vontade do governante.
Como chegar
A ponte situa-se na província de Sakarya, na localidade de Beşköprü, a sudoeste de Adapazarı. Coordenadas exatas: 40,73736° N, 30,37276° E. A partir de Istambul — cerca de 150 quilómetros pela autoestrada O-4 (E80); a viagem de carro demora entre 1,5 a 2 horas, dependendo do trânsito à entrada da metrópole.
O mais conveniente é ir de carro alugado: a autoestrada é moderna, o estacionamento junto à ponte é gratuito e quase sempre está livre. A alternativa é o comboio de alta velocidade YHT de Istambul (estação de Pendik) até Arifiye ou Adapazarı, com uma duração de viagem de 1 hora e 20 minutos. Da estação de Arifiye até à ponte são cerca de 4 quilómetros; pode apanhar um táxi, numa viagem de 5 a 7 minutos, ou caminhar 50 minutos ao longo do rio. De Adapazarı, há dolmuşes (autocarros locais) que vão até à ponte na direção de Arıncı e Beşköprü — todos os motoristas conhecem o ponto de referência «Justinianus Köprüsü». Para quem chega diretamente ao aeroporto IST de Istambul, o mais fácil é alugar um carro diretamente no terminal: em apenas duas horas estará debaixo das arcadas do século VI.
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é o final da primavera (abril–maio) e o início do outono (setembro–outubro). No verão, o vale aquece até aos +33…+35 °C, quase não há sombra na ponte e não encontrará cafés ou quiosques turísticos nas proximidades — leve água, um chapéu e protetor solar. No inverno, o local é húmido e ventoso, mas, em contrapartida, está deserto: o fotógrafo conseguirá imagens perfeitamente vazias com neblina sobre Chark-Deresy.
Reserve pelo menos 1–1,5 horas para uma visita tranquila: atravesse a ponte de ponta a ponta duas vezes (em ambos os sentidos abrem-se vistas diferentes da abside e dos canais de drenagem), desça até ao ribeiro pelo lado sul para apreciar a alvenaria por baixo. É necessário calçado com sola antiderrapante — as lajes de mármore são escorregadias em alguns pontos e cresce relva densa nas encostas circundantes. Na Turquia, os drones requerem autorização legal, mas a fotografia a partir do solo é livre e bem-vinda.
É conveniente combinar a visita com uma viagem ao lago Sapanca (15 km a oeste) — lá há restaurantes à beira do lago, explorações de truta e aldeias tranquilas. Outra combinação lógica é a cascata de Maashukie em Kocaeli (a 40 minutos de carro) e as ruínas de Nicéia (Iznik), a uma hora de carro a sudeste, onde se realizou o famoso Concílio Ecuménico no século IV. Para um viajante de língua russa que parte de Istambul, este é um circuito ideal de um dia: a ponte bizantina pela manhã, almoço à beira do lago Sapanca e, à noite, regresso à cidade pela mesma estrada E80, construída praticamente sobre a antiga via militar romana.
Do ponto de vista prático: não é necessário bilhete de entrada, o local está aberto 24 horas por dia, não há vedações — mas é precisamente por isso que aqui vigora uma regra tácita de respeito silencioso. Não subam nas cruzes preservadas dos pilares, não lasquem pedaços de calcário «como lembrança» e não acendam fogueiras sob os arcos. Há mil e quinhentos anos, aqui passava a estrada militar do império, por onde transitavam legiões, mensageiros e o próprio Justiniano; hoje, a Ponte de Justiniano (Sakarya) continua a ser um monumento raro, onde é possível tocar na pedra que recorda Procopio, Agátio e a época em que os engenheiros consideravam os rios inimigos que podiam ser acorrentados em arcos.