A cidade do adivinho Mopsu: a antiga Mopsuestia nas margens do rio Ceyhan
Mopsuestia (grego: Mopsuestia, turco: Misis) — um dos monumentos arqueológicos mais antigos e, ao mesmo tempo, mais subestimados da Cilícia. Esta cidade multifacetada, nas margens do rio Ceyhan (antigo Piram), situava-se num cruzamento de estradas estrategicamente importante entre a Anatólia, a Síria e a Mesopotâmia. Ao longo de mais de dois milénios, gregos, romanos, arménios, bizantinos, árabes e seljúcidas sucederam-se aqui, e cada época deixou a sua marca na crônica de pedra da cidade. Hoje, do esplendor antigo restam ruínas imponentes: a ponte romana de pedra sobre o Ceyhan, os vestígios das muralhas da cidade, a basílica com o mosaico único da Arca de Noé e um pequeno museu de mosaicos mesmo no local. Mopsuestia não faz parte das «estrelas» da arqueologia turca, como Éfeso ou Hierápolis, e é aí que reside o seu encanto especial — aqui quase não há grupos de turistas, e é possível passear sozinho pelas colinas cobertas de relva, imaginando a vida na fronteira da Cilícia.
História e origem
De acordo com a mitologia grega, a cidade foi fundada pelo lendário adivinho Mops — filho de Manto e do herói Raki (segundo outra versão — do próprio Apolo). Mops era considerado um dos maiores clarividentes do mundo antigo, e as tradições situam a sua vida na época pós-troiana, ou seja, no século XII a.C. Dados arqueológicos confirmam que já existia um povoado neste local no II milénio a.C., altura em que os hititas, que dominavam a maior parte da Ásia Menor, controlavam também este território.
No período helenístico, a cidade fazia parte do Império Selêucida. Um período de especial prosperidade surgiu com os romanos, que reconstruíram Mopsuéstia ao estilo da urbanística romana clássica: com fórum, termas, teatro e uma ponte de pedra sobre o rio Ceyhan. A ponte chegou até aos nossos dias — é uma das pontes romanas mais longas e bem conservadas no território da Turquia, tendo sido reconstruída nos períodos bizantino e otomano, mas mantendo os pilares antigos.
Na época tardo-romana e bizantina, Mopsuestia tornou-se um importante centro cristão. Aqui viveu e pregou Teodoro de Mopsuestia — um dos maiores teólogos da Escola de Antioquia dos séculos IV–V, mentor de Nestório. A cidade era a residência do bispo e possuía inúmeros templos e basílicas. É precisamente a este período que remonta o famoso mosaico da Arca de Noé — um dos melhores exemplos da arte mosaica paleocristã na Ásia Menor.
No século VII, Mopsuéstia caiu sob domínio árabe e foi renomeada Al-Massissa. A cidade tornou-se uma importante fortaleza fronteiriça do califado na fronteira com a Bizâncio e mudou de mãos várias vezes. No século XII, a região foi dominada pelos cruzados e pelos governantes arménios da Cilícia. Após a conquista otomana, a importância da cidade esmoreceu e, gradualmente, transformou-se na pequena aldeia de Misis. As escavações arqueológicas sistemáticas tiveram início no século XX e continuam até aos dias de hoje.
Arquitetura e o que ver
A zona arqueológica de Mopsuestia está situada em ambas as margens do rio Jaihan, e para uma visita completa vale a pena reservar pelo menos 1,5 a 2 horas. Os principais locais de visita estão espalhados pelo território, sendo preferível deslocar-se a pé ao longo dos trilhos sinalizados.
Ponte romana sobre o rio Ceyhan
O principal cartão de visita de Mopsuestia é a imponente ponte de pedra sobre o rio Ceyhan. Com mais de 300 metros de comprimento, assenta em nove arcos e, na época bizantina, era ladeada por torres de defesa. A ponte foi construída com grandes blocos de arenito e basalto; na sua espessura são visíveis vestígios antigos — blocos de revestimento com inscrições romanas e fragmentos de colunas, utilizados como material de construção pronto a usar. Da ponte tem-se uma excelente vista sobre as ruínas da cidade e o rio, que aqui faz uma curva pitoresca.
Basílica e mosaico da Arca de Noé
A algumas centenas de metros da ponte, conservam-se as ruínas de uma basílica paleocristã. O seu principal tesouro é um grande mosaico dos séculos V-VI, representando uma cena com a Arca de Noé e animais, bem como composições ornamentais com motivos vegetais. O mosaico está bem conservado graças a uma camada de terra com vários séculos que o protegeu dos vândalos. Hoje, está exposto num pavilhão-museu construído especialmente para o efeito (Misis Mozaik Müzesi).
Muralhas da cidade e fortaleza
No cume da colina que se ergue sobre a cidade encontram-se as ruínas de uma fortaleza medieval com torres e fragmentos de muralhas. Parte da alvenaria remonta aos períodos bizantino e arménio, outra parte às reconstruções árabes. Do topo da colina, tem-se uma vista panorâmica sobre o vale do Ceyhan e a fértil planície de Çukurova.
Teatro e fórum
Os arqueólogos conseguiram descobrir os contornos do teatro romano e fragmentos da praça-fórum, mas uma parte significativa destas construções ainda aguarda escavações. São visíveis as paredes de suporte da cavea, bem como fragmentos de colunas e capitéis espalhados pelo terreno.
Museu de Misis
Um pequeno museu moderno guarda os achados das escavações: fragmentos de mosaicos, inscrições, cerâmica, moedas e esculturas. A coleção numismática é particularmente interessante: Mopsuestia cunhou as suas próprias moedas nos períodos helenístico e romano.
Factos e lendas interessantes
- O nome da cidade está ligado ao lendário adivinho Mops, considerado na Antiguidade um vidente mais preciso do que o próprio Calchante — o profeta do exército grego junto a Tróia.
- Teodoro de Mopsuestia, que viveu aqui nos séculos IV–V, é considerado um dos fundadores da escola de exegética de Antioquia, que influenciou o desenvolvimento do cristianismo oriental.
- A ponte romana sobre o rio Jaihan foi utilizada para o seu fim específico até ao século XX — quase 1800 anos de serviço ininterrupto.
- No período árabe, a cidade fazia parte das chamadas as-Sugur — fortalezas fronteiriças do califado abássida, que protegiam a Síria dos ataques bizantinos.
- O mosaico da Arca de Noé de Misia é considerado um dos mosaicos cristãos mais antigos e detalhados com tema bíblico na Ásia Menor.
- No território da cidade foram encontradas moedas cunhadas durante o reinado de Alexandre, o Grande, o que atesta o comércio ativo na época helenística.
- Entre os anos 1990 e 2000, foram descobertas nas imediações de Mopsuestia criptas bizantinas subterrâneas com vestígios de afrescos, ainda não totalmente estudadas pelos arqueólogos.
Como chegar
Mopsuestia (Misis) fica a cerca de 25 km a leste de Adana, na direção de Osmaniye. De carro, a viagem a partir do centro de Adana demora cerca de 30 minutos pela autoestrada D-400, que conduz à fronteira com a Síria; a saída correta está sinalizada com placas para Yakapınar (nome atual da aldeia) e Misis. Se não tiver carro, o mais conveniente é alugar um táxi por meio dia ou juntar-se a uma excursão: os transportes públicos aqui são pouco frequentes e nem sempre convenientes para o turista. A partir da estação rodoviária de Adana (Adana Otogarı) partem autocarros suburbanos em direção a Ceyhan e Osmaniye; pode pedir ao motorista para o deixar na curva para Misis e, a partir daí, seguir a pé (cerca de 1–1,5 km). A viagem de Osmaniye até Misis demora aproximadamente 35–40 minutos. O aeroporto de Adana (ADA) fica a 35 km da zona arqueológica, e o aeroporto de Gaziantep — a 200 km. É conveniente combinar a visita com uma viagem a outros monumentos da Cilícia — a fortaleza de Yılankalesi, o castelo de Anavarza e a costa perto de Mersin.
Dicas para o viajante
Mopsuestia é um típico parque arqueológico «ao ar livre», sem bilheteiras nas ruínas: a entrada no recinto é gratuita, pagando-se apenas a visita ao museu de mosaicos (um valor simbólico). O horário do museu pode variar consoante a época do ano, por isso verifique antes da viagem; normalmente funciona das 8h:30 às 17h:00, com uma pausa para almoço, e fecha ao domingo. A melhor altura para visitar é a primavera (março–maio) e o outono (setembro–novembro): nesta altura não faz calor e as estepes de Çukurova estão cobertas de relva e flores silvestres. No verão, o termómetro sobe até aos 38–40 graus, e é difícil permanecer nas ruínas sem chapéu e água. No inverno, são possíveis chuvas e lama — os caminhos pedregosos tornam-se escorregadios. O calçado deve ser fechado, com sola resistente: o terreno tem muitas pedras, fragmentos de mármore e irregularidades. Não se esqueça de levar água, protetor solar e, idealmente, binóculos — alguns detalhes arquitetónicos são bem visíveis à distância. É útil descarregar mapas offline com antecedência: existem placas de sinalização no local, mas são escassas. Para uma melhor compreensão do contexto, vale a pena visitar o museu arqueológico de Adana, onde se encontra uma grande coleção de artefactos de Mopsuestia e onde é possível ver mosaicos e inscrições originais. Normalmente não há guias no local, mas por vezes é possível chegar a acordo com o guarda do museu mediante pagamento adicional. E por último: lembre-se de que a zona é, na verdade, uma aldeia ativa — trate os habitantes com respeito, não entre nas propriedades privadas e não fotografe pessoas sem autorização.