A Mesquita de Süleymaniye — uma obra-prima de Mimar Sinan e um símbolo da época dourada do Império Otomano
A Mesquita de Süleymaniye (Süleymaniye Camii) é a mais majestosa mesquita imperial de Istambul e uma das principais obras-primas do arquiteto Mimar Sinan, construída para o sultão Solimão, o Magnífico, entre 1550 e 1557. Erguida na Terceira Colina da antiga Istambul, domina o Corno de Ouro e continua a ser o exemplo mais notável da arquitetura otomana clássica. Em 1985, juntamente com o resto da Istambul histórica, a Suleimaniye foi incluída na Lista do Património Mundial da UNESCO. Não se trata apenas de uma mesquita, mas de um enorme «külliye» — um complexo de instituições religiosas, educativas e de caridade, que reflete a grandeza imperial da época de Solimão. Muitos historiadores de arquitetura consideram precisamente a Suleimaniye, e não as mesquitas mais recentes e famosas de Istambul, o ápice absoluto da arquitetura otomana — a resposta ideal à Santa Sofia bizantina e, ao mesmo tempo, a sua superação criativa.
História e origem da mesquita de Solimão
Em meados do século XVI, o Império Otomano encontrava-se no auge do seu poder. O sultão Solimão I, apelidado no Ocidente de «o Magnífico» e no Oriente de «Kanuni» (o Legislador), concluiu a expansão territorial de Buda a Bagdade e da Crimeia ao Iémen. Reinou durante mais de 46 anos, e o seu reinado tornou-se a época dourada do império. Por tradição, cada sultão era obrigado a construir uma mesquita imperial, normalmente financiada com os espólios de guerra. Para Solimão, essa mesquita deveria ser a mais magnífica — um símbolo do seu poder, riqueza e piedade.
Em 1550, Solimão encarregou a construção a Mimar Sinan, o principal arquiteto da corte, que já se tinha destacado com uma dezena de obras notáveis. Naquela altura, Sinan era um arquiteto experiente de setenta anos, e a Mesquita de Solimão tornou-se o seu maior projeto. O próprio Sinan diria mais tarde que a Mesquita de Solimão era o seu «trabalho de aprendiz», considerando a Mesquita de Selimiye, em Edirne, construída mais tarde, como a sua principal obra-prima. As obras prolongaram-se por sete anos, e a mesquita foi inaugurada solenemente em 1557, na presença do sultão, que recebeu as chaves dos portões simbólicos.
Ao longo de quase cinco séculos de existência, a Suleymaniye passou por várias catástrofes. O primeiro grande incêndio, em 1660, danificou os interiores; a restauração foi levada a cabo pelo sultão Mehmed IV em estilo barroco, o que alterou parcialmente o projeto original. O terramoto de 1766 derrubou parte da cúpula. Durante a Primeira Guerra Mundial, o pátio interior serviu de armazém de munições, e um incêndio causado por uma explosão provocou mais danos. Entre 1956 e 1960, foi realizada uma restauração em grande escala, que devolveu à mesquita o seu aspeto clássico. Em 2010, teve início uma nova fase de trabalhos de restauração do interior, e atualmente a mesquita encontra-se em excelente estado.
Arquitetura e o que ver na Suleimaniye
A Suleymaniye é a mais pura personificação da arquitetura otomana clássica do século XVI. As suas proporções, alvenaria, iluminação e soluções de engenharia são consideradas a referência do género.
A composição da cúpula — a solução ideal
A cúpula principal da Suleymaniye tem 27,25 metros de diâmetro e 53 metros de altura (exatamente o dobro do diâmetro — a proporção clássica). A cúpula assenta em quatro pilares maciços e é sustentada por duas grandes semicúpulas laterais — uma solução claramente inspirada na Santa Sofia, mas desenvolvida numa forma mais leve e elegante. Ao contrário da Mesquita Azul, com a sua cascata de semicúpulas, aqui o sistema é mais simples e, ao mesmo tempo, tecnicamente mais aperfeiçoado. O espaço interior — um quadrado quase perfeito de 58,5 × 57,5 metros — cria uma sensação de amplitude e leveza, algo que Sinan procurou alcançar ao longo de toda a sua vida.
Os quatro minaretes e o seu simbolismo
A Mesquita de Solimão tem quatro minaretes com um total de dez varandas (sherifes). Isto simboliza o facto de Solimão ter sido o quarto sultão otomano a governar em Istambul após a conquista da cidade e o décimo sultão da dinastia otomana. Dois minaretes à entrada do pátio principal são mais altos (cerca de 72 metros), enquanto os outros dois, mais baixos, situam-se nos cantos da própria mesquita.
Decoração interior e vitrais
O interior da Suleimaniye é moderadamente decorado em comparação com mesquitas posteriores: os elegantes azulejos de Iznik encontram-se apenas em torno do mihrab, enquanto a maior parte das paredes está coberta por uma pintura caligráfica austera. Os famosos vitrais da autoria do mestre Sarkhosh Ibrahim (Ibrahim o Bêbado) inundam o mihrab com luz colorida — uma técnica aplicada pela primeira vez em tal escala precisamente aqui. O mihrab e o minbar são em mármore branco com incrustações delicadas.
Complexo de kuliye e türbe
À volta da mesquita encontra-se um enorme complexo de kuliye, construído em simultâneo com ela: quatro madrasas (escolas teológicas), uma escola de medicina, um hospital (timarkhane, um dos primeiros hospitais psiquiátricos do mundo), um imaret (refeitório para os pobres), um caravançarai, uma escola primária, lojas e banhos. Era uma verdadeira «cidade dentro da cidade», onde milhares de pessoas estudavam, recebiam tratamento médico e assistência. A leste da mesquita encontram-se dois türbes (mausoléus) — do próprio sultão Solimão, o Magnífico, e da sua amada esposa Roksolana (Hürrem Sultana). Os túmulos estão decorados com requintada cerâmica de İznik e são considerados verdadeiras obras-primas da arte otomana.
Túmulo de Mimar Sinan
No canto noroeste do complexo, junto à mesquita, encontra-se o modesto túmulo do próprio Mimar Sinan — o arquiteto que construiu mais de 300 edifícios e viveu até aos 98 anos. Esta é a sua única construção onde ele próprio está sepultado.
Mimar Sinan: um janízaro que se tornou um génio
A história do próprio arquiteto é tão fascinante quanto a história da sua obra-prima. Sinan nasceu por volta de 1489 numa família greco-arménia na Capadócia e foi recrutado para o serviço imperial através do sistema do devşirme. Ele percorreu o caminho de simples engenheiro de engenharia militar no exército de Solimão, o Magnífico (construía pontes e máquinas de cerco), até se tornar o principal arquiteto da corte — cargo que ocupou por mais de 50 anos. Durante esse tempo, Sinan projetou mais de 320 edifícios: 92 grandes mesquitas, 52 pequenas, 57 madrasas, 48 banhos, 35 palácios, 22 mausoléus, 20 caravançarais, 17 imarets e inúmeras pontes, entre as quais a mais famosa — a ponte de Mehmed-paşa sobre o rio Drina, na Bósnia (também Património da UNESCO). Sinan considerava três das suas obras como as principais: a mesquita de Shehzade em Istambul («obra de aprendiz»), a Suleymaniye («obra de ajudante») e a Selimiye em Edirne («obra de mestre»). Morreu em 1588, aos 99 anos, e foi sepultado aos pés da sua própria obra-prima — num modesto mausoléu numa rua que ele próprio projetou.
Segredos de engenharia da cúpula e acústica
O segredo da resistência da cúpula da Suleymaniye reside num sistema cuidadosamente concebido de contrafortes e arcos de descarga. Sinan distribuiu o peso da cúpula através de semicúpulas, arcos e pilares maciços de tal forma que o edifício é capaz de resistir a fortes terramotos sem se destruir — e, de facto, ao longo de quase quinhentos anos, a mesquita resistiu a dezenas de tremores. A sistema de ventilação merece especial atenção: acima da entrada da mesquita encontra-se uma pequena sala onde a fuligem das lâmpadas de óleo e das velas se concentrava, evitando que se depositasse nas paredes e nos tapetes. Sinan utilizava a fuligem recolhida para fabricar tinta de alta qualidade, que era fornecida à chancelaria do sultão. Este é um verdadeiro exemplo de pensamento ecológico do século XVI, que se antecipou ao seu tempo. A acústica da mesquita também foi calculada matematicamente: 64 ressonadores de barro na cúpula permitem que a voz do imã soe uniformemente em todos os cantos da sala, sem eco nem distorções — um efeito que os acústicos modernos medem e ainda hoje tentam explicar.
O complexo do külliye como instituição social
O Kuliye Suleymaniye não era apenas um centro religioso, mas o maior centro social de Istambul do século XVI. No imarete, alimentavam-se diariamente e de forma gratuita até 1000 pessoas — pobres, estudantes e viajantes. No hospital Timarhane praticava-se um tratamento único para a época de perturbações mentais com a ajuda de música, procedimentos aquáticos e conversas com médicos — dois séculos antes de na Europa ter começado a abordagem humanitária à psiquiatria. Nas quatro madrasas estudavam mais de 600 alunos, que aprendiam o Alcorão, os hadiths, o direito, a matemática, a astronomia e a medicina. A biblioteca do kuliye continha uma das maiores coleções de manuscritos do Império Otomano — hoje, esses manuscritos estão distribuídos entre as bibliotecas de Süleymaniye e Topkapı.
Türbe do sultão e de Hurrem Sultan
Dois mausoléus a leste da mesquita merecem uma atenção especial. O türbe de Solimão, o Magnífico — um edifício octogonal com cúpula, decorado no interior com magníficos azulejos de Iznik com motivos vegetais. No centro — o sarcófago do próprio sultão, coberto por um tecido verde com caligrafia dourada; ao lado — os túmulos das suas duas filhas e herdeiras. O türbe de Hurrem Sultan (Roxolana) é menor em tamanho, mas não menos requintado. O seu sarcófago está decorado com azulejos vermelhos com tulipas — as suas flores favoritas. Hürrem foi a primeira sultana a receber o estatuto oficial de esposa do sultão e a ser sepultada no mausoléu imperial; o seu túmulo tornou-se um símbolo do início do «Sultanato das Mulheres» — um período em que as mulheres do harém exerciam uma influência significativa na política do império.
Factos interessantes e lendas
- A maravilha da engenharia de Suleimaniye — o seu sistema de ressonadores sub-abovedos: no corpo da cúpula estão incorporados 64 vasos de barro ocos, que melhoram a acústica e permitem que a pregação do imã seja ouvida em todos os cantos da sala sem amplificação moderna.
- Sinan verificava pessoalmente a qualidade da cal e da pedra, permanecendo horas a fio junto à fundação. Reza a lenda que ele se recusava a iniciar a construção da cúpula até que a cal na argamassa tivesse «amadurecido» ao longo de vários anos.
- A mesquita ergue-se numa encosta complexa da Terceira Colina, e Sinan realizou enormes trabalhos de reforço da fundação: sob o edifício encontram-se esconderijos maciços e cisternas de água, que servem simultaneamente de suporte e proteção contra tremores sísmicos.
- No túmulo do sultão Solimão e de Roksolana ainda são visíveis vestígios de restaurações de diferentes épocas, mas na base encontra-se a cerâmica original de Iznik de meados do século XVI, uma das melhores do mundo.
- Após o incêndio de 1660, parte dos trabalhos de restauração foi realizada em estilo barroco, mas em meados do século XX esses elementos foram removidos, e a mesquita recuperou a sua aparência austera original.
Como chegar à Mesquita de Süleymaniye
A Mesquita de Suleimaniye situa-se na cidade velha, no topo da Terceira Colina, a uma curta distância a pé do Grande Bazar (cerca de 10 minutos) e do Bazar Egípcio em Eminönü (15 minutos). A paragem de elétrico T1 mais próxima é «Beyazıt-Kapalıçarşı» ou «Eminönü». A partir daí, é uma subida de cerca de 10 a 15 minutos pelas ruelas estreitas. Quem não gosta de subir pode apanhar um táxi diretamente até à entrada sul da mesquita.
A partir do aeroporto IST, é mais conveniente apanhar o metro M11 até Kâğıthane, depois o M7 e o elétrico T1. A partir do aeroporto Sabiha Gökçen — autocarros Havabus até Taksim e depois até Eminönü. A entrada na mesquita é gratuita para todos, sendo possível visitá-la durante o dia, com exceção das cinco orações diárias. A melhor altura para visitar é a segunda metade da manhã ou a tarde, fora dos horários de oração.
Dicas para o viajante
Reserve pelo menos 1 a 1,5 horas para a mesquita de Süleymaniye: a própria mesquita, dois türbes, o pátio interior com fonte e um passeio pelo complexo. Não deixe de ir até ao terraço norte atrás da mesquita — daqui abre-se uma das melhores vistas panorâmicas de Istambul sobre o Corno de Ouro, a Torre de Galata e o Bósforo. Muitos consideram esta vista ainda melhor do que a dos miradouros de Galata ou Eyüp.
O código de vestuário é o mesmo de sempre: as mulheres devem cobrir a cabeça, os ombros e os joelhos; os homens não podem entrar de calções. À entrada, são distribuídos lenços gratuitamente. Os sapatos são retirados e transportados num saco de plástico. No interior, a mesquita é menos movimentada do que a Mesquita Azul ou Santa Sofia, o que a torna o local ideal para uma contemplação tranquila e fotografias de qualidade sem multidões. Perto da mesquita, há vários restaurantes com vista para o Corno de Ouro — o «Süleymaniyeli Ağa» é especialmente conhecido pelos seus clássicos kebabs turcos.
Não deixe de visitar o türbe do sultão Solimão e de Hurrem Sultan — a entrada é separada, mas gratuita. Para os fãs da série «O Século Magnífico», isto é quase uma peregrinação: aqui repousam os heróis de uma época que revolucionou a história otomana. A melhor altura para tirar fotografias é de manhã, quando a luz suave realça as proporções das cúpulas, ou na hora dourada antes do pôr-do-sol, quando a mesquita é banhada por uma luz quente. A Mesquita de Solimão é um lugar onde se percebe que a arquitetura imperial pode ser simultaneamente grandiosa e sóbria, impressionante sem excessos, e que os grandes arquitetos não se medem pela quantidade de ornamentos, mas pela pureza das proporções.